quarta-feira, 14 de abril de 2010

Descoberta

Naquele momento, o entardecer fazia dourar os ângulos suaves da cidade medieval.


Ao longe, além dos diques e dos campos de papoulas, a silhueta dos moinhos trazia uma paz tranqüila àquele lugar.

Numa pequena casa, retirada do aglomerado e do ruído das pessoas, um homem esquivo está detido espantado diante do papel e da pena.

Na mesa larga, entre frágeis objetos, os axiomas, definições e silogismos tão duramente perseguidos se organizam agora numa estrutura coerente, mas ainda assim misteriosa.

Terá sido possível, que da rigidez férrea das definições lógicas, da combinação misteriosa das palavras naquela prosa labiríntica, haver saltado aquela espantosa verdade ?

Num passado recente, tinha sido terrível o confronto com os inquisidores de sua crença. Porém sua esperança foi maior e sua fé, liberta na sua pureza verdadeira foi anátema para seus juízes.

Para mantê-la, renunciou aos dogmas de seus maiores e abraçou a nebulosa arte do pensamento e da dúvida.

Na antiga tradição da Kaballa, a combinação das letras poderia formar o impronunciável nome de Deus, ele porém o tinha descoberto na sua Ética.

“A totalidade aniquila o ser”.

Esse axioma seu era uma verdade intrínseca da substância de Deus, visto que o homem é parte da natureza juntamente com todas as coisas criadas e apenas uma parte do todo.

O todo compõe o corpo de Deus e abarca toda as coisas criadas.

“Todos os seres vivem sob uma espécie de eternidade”. Temos dentro de nós a certeza da eterni-dade, embora o homem saiba que irá morrer, ele sabe intuitivamente, pertencer à eternidade, dentro da totalidade divina.

“Todas as coisas querem perseverar no ser”. Sim, o homem quer eternamente ser homem, assim como a pedra quer ser eternamente pedra, buscando na permanência, sua própria essência.

Sim, seu espanto cada vez mais ia se tornando uma certeza diante da enormidade daquela descoberta.

Recordou que na tarde da excomunhão, julgou sentir dentro de seu peito um sentimento de orgulho por ter escolhido viver dentro dessa verdade. Agora ali, na tarde calma, entre os escritos, tinha a certeza da definição correta e do acerto de suas escolhas.

O homem busca sua ética para dela viver, não para ter uma conduta diante dos outros, mas, antes, para poder olhar seu rosto no espelho.

Aproximou-se lentamente da janela da pequena sala de estudo e fitou a tarde, agora não teria que esperar muito pensou.

Vítima de sua própria verdade, ao pronunciar o terrível nome, conhecera o fim.