quarta-feira, 14 de abril de 2010

Os Imigrantes

Mântua fica na região do Vale do Pó, bem ao norte, próxima de Bréscia e Ferrara e foi um cansativo trajeto até o antigo porto de Gênova de onde partiria o cargueiro Príncipe di Udine, rumo a um novo e desconhecido mundo.


Um homem, uma mulher, casados, com dois filhos pequenos, uma menina de oito e um menino de cinco anos. Na barriga da mulher, gestava o terceiro filho que viria a ser menina e que iria nascer naquele lugar desconhecido.

O navio, lentamente deixou o porto e se fez ao largo do Golfo de Gênova, navegando em direção ao Mar Ligúrico e de lá para o Tirreno.

Na amurada do navio as duas crianças fitavam o claro céu mediterrâneo e sonhavam acordadas com o futuro. Seus pais preocupavam-se com eles a cada minuto. A Mãe, enérgica na sua fiscalização dos filhos e o Pai, sempre se dirigindo aos pequenos com extremo carinho.

Seguia a viagem.

O navio singrou em direção da Córsega e descendo mais para o sul fez uma escala técnica em Cágliari na Sardenha, de onde fletindo à direita orçou rumo do Mar Mediterrâneo em direção de Gibraltar.

A viagem era lenta e as acomodações do velho cargueiro muito precárias, mas as crianças viviam sua aventura maior.

O que estaria reservando para eles o futuro?

Encontrariam conhecidos, que antes deles já haviam feito a mesma viagem?

A criança no ventre da mãe saberia essa resposta vinte e tantos anos depois.

Tudo era devido àquela maldita guerra que transformou o norte da bela Itália e a região do Sermide num lugar pobre e carente e sem perspectivas. Daí a idéia de muitos homens e mulheres procurarem ganhar a vida num novo país, onde existia trabalho para todos e possibilidades de enriquecimento, principalmente para aqueles que já possuíam alguma profissão.

Brasile! alguns amigos falavam, terra para a qual muitos já haviam partido nos anos anteriores mesmo antes da guerra e mandavam noticias de prosperidade e de muito trabalho.

Finalmente o grande rochedo de Gibraltar foi avistado ainda de longe. Ali o navio permaneceu ao largo para passarem a noite cujo tempo estava um pouco ruim.

Na manhã seguinte retomaram a viagem margeando a costa africana, para após alguns dias atracarem na cidade de Dakar no Senegal.

No agitado porto africano aonde chegaram, a menina viu algo que a encheu de terror; um negro!

E outros e mais outros, parecia que todos os habitantes daquele lugar bárbaro que falavam um dialeto igualmente bárbaro haviam sido calcinados por um fogo terrível, mas permaneciam vivos.

Negro! Uomo nero! Dio mio!

Foi preciso muita calma para os pais aplacar seu terror, que ficou latente no seu espírito pelos anos que viriam.

Um dia no futuro incerto o menino já homem perguntaria com um certo tremor na voz, para um sobrinho que havia feito uma viagem para o nordeste do Brasil: — E a negrada lá?...

De lá o navio seguiu viagem pelo mar oceano, fletindo a bombordo rumo do Brasil e do Porto do Recife.

Salvador, Rio e finalmente Santos de onde baldeados trens os trouxeram até o planalto e dali para a nova vida.

E o tempo, seguiu seu curso ...

A vida é cheia de mistérios. Trinta e quatro anos depois do desembarque daquela família nasceria a pessoa que oitenta anos após a partida do Porto de Gênova, tentaria escrever em emocionadas linhas algo dessa aventura.

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