sábado, 10 de setembro de 2011

Mãe

Poderás inda uma vez recordar de mim?

Estender-me tua mão na noite incerta?

Poderás nessa brumosa estação em que habitas, ver meu rosto

outrora calmo, hoje arfante e severo?

Agora que cada lembrança de teus gestos mais simples e hesitantes

cravam no meu peito o gume da dor e da saudade ?

Quisera dar-te (nesse teu dia) um momento de paz na noite infinita da angustia de tentar reviver coisas perdidas.

E te pedir um perdão, ainda que inútil, ante o que leguei.

Lembrar no teu regaço, as vezes que me chamaste para casa, nossa casa,

na ruazinha simples perdida.

Porque agora só chamas pelos mortos que nada podem fazer;

por  ti que partiste e por mim que te perdi ?

Prova de Matematica

Chovia naquela manhã e mais uma vez fazia frio pelas ruas do Jardim São Paulo e nós ficávamos, alunos do terceiro ano primário se movimentando pelo enorme pátio da escola tentando nos aquecer e esquecer.

Naquele dia iríamos receber as notas da prova de matemática, aquela materia adorada por todos e cujas notas eram sempre esperadas na dúvida e no sofrimento.

Em nossa escola, “Prof.Máximo de Moura Santos”, era a única matéria que era dada por um professor o que para nós era um complicador adicional.

Mas o que fazer? A vida era assim mesmo, existiam segundas-feiras, missas, lições de casa e.. aulas e provas de matemática !

Ao sinal, fomos entrando em nossas salas de aula e cada um ocupando seu lugar tentando rir ou disfarçar da grande tragédia prestes a se abater sobre a imensa maioria de nós.

O tumulto da entrada foi se acalmando quando surge na porta, assim meio de perfil, ele, o Sr.Professor.

Silêncio sepulcral !

Lentamente, sem olhar para ninguém, foi se dirigindo para sua mesa sob a qual, num gesto meio assim de desprezo, larga uma pasta negra, aquela que devia conter nossa sentença de morte, pensei.

Silêncio absoluto !

Nas janelas apenas a garoa fria batendo e por suas frestas o vento gélido, polar, terminal.

O Professor ficou olhando pela janela com expressão de cansaço e desanimo a toldar-lhe o semblante por longo tempo, mal notando nossa presença na sala silenciosa sem dizer absolutamente nada.

O terror foi dominando cada um de nós, provavelmente receberíamos além do enorme ZERO aquele sermão tão aviltante e tão evitado por todos os alunos desse mestre exigente e severo.

Foi quando de súbito, pega da pasta sob a mesa, abre-a, e com o dedo indicador e o polegar da mão direita como se fosse uma pinça, num gesto de repulsa, começa a tirar folha por folha e com voz cava começa a dizer:



Luiz Carlos, nota 3 !

Antonio Junior, nota 2,4!

Maria Felícia, nota 3,1!

Helio Burato, nota 2,8!

Aparecida Ferreira, nota 4,1!



Meu Deus, a melhor aluna da classe, Aparecida Ferreira, a meiga e estudiosa Cidinha, tirou apenas 4,1 então meu zero devia ser tão imenso que de algum modo iria abarcar até as outras matérias.

A voz apocalíptica continuava:



Carlos Alberto, nota 3,2!

Fernando Meira, nota 3,1!

Paulo Roberto, nota 1,8!

Alexandre Mauricio, nota 1,2!



De repente, um sentimento de orgulho e heroísmo inesperados foi tomando conta de mim porque pensei em meio a tantas “baixas” quem iria se importar comigo?

Eu pensava e ao fundo a voz monocórdia continuava sua plegaria, meu Pai não ia se importar com meu zero em vista de tantas notas ruins, mesmo porque meu forte era português e ciências mesmo.

Foi quando percebi que a voz havia cessado e agora o Professor olhava diretamente para um ponto na parede do fundo da sala, onde a canalha se sentava e falou, agora com um tom mais ameno:



Houve apenas um aluno, apenas um, que salvou a honra de nossa classe, Alfred Delatti, nota 7,5!



O mundo desabou sobre mim quando todos me olharam e eu incrédulo quis gaguejar um obrigado para o Professor que me olhava sorrindo, mas nada consegui falar.

Eu 7,5 de matemática ? Era verdade !

O Professor me deu parabéns ao me entregar a folha da prova onde no alto pude ver em tinta azul a cifra redentora  7,5 !

A classe, rompendo o ar pesado e tenso explodiu numa ovação que a todos contagiou até o Professor sisudo, agora rindo com todos e eu pensei que matéria maravilhosa que é Matemática.








A Galeria

O amigos perguntavam: mas, você vai lá mesmo?

E como voce vai entrar lá ? Tem certeza ?

Eu respondia, claro que vou ! Esperei mais de um ano para isso agora tenho que ir !

Mas, quanto você vai pagar ? Não é perigoso levar dinheiro assim vivo ?

Eu repondia: e voces acham que eles vão me vender se eu não pagar em dinheiro ?

Toma cuidado, você quer que eu vá junto, perguntava o Zé Carlos, fico na porta te esperando ? Eu dizia, que nada, vou sozinho, compro e trago pra voces verem que maravilha que é curtir uma legitima .

Chegou o grande dia ! Peguei o onibus elétrico que saia de frente da Padaria Novo Mundo, o velho 107 que tinha ponto inicial no Largo São Bento.

De lá, era pegar a Florencio de Abreu, descer a ladeira Porto Geral e cair na 25 para então adentrar no templo do contrabando de S.Paulo, assim diziam.

Era lá que eu ia comprar o bem precioso, aquilo que me igualaria entre os amigos e me faria vistoso para as meninas em flor.

O dinheiro bem guardado no bolso, estava na quantia exata nem um mísero centavo a mais, se o preço tivesse subido, voltaria de mãos vazias e aí seria pelo menos mais um mês de total economia e abstinências.

Fui andando entre a multidão que na sua pressa paulistana me esbarravam e se esbarravam sem olhar para trás. Ruídos, mercadorias, tipos estranhos, mulheres que me fitavam com olhos lascivos fazendo pequenos sinais.

Eu apressava o passo mesmo sendo atraído pelas vitrines onde de tudo se vendia, roupas, cigarros, canivetes, revistas de mulheres e cigarros americanos.

O velho centro de SP era um mundo em si mesmo onde só ali se podia ver coisas que nas ruas de nossa Santana jamais aconteceriam.

De repente me vejo diante do endereço buscado, um prédio sombrio, com poucas pessoas que saiam segurando embrulhos e olhando desconfiados.

Fiquei alguns minutos diante dele pensando se deveria entrar mesmo por aqueles corredores escuros e buscar o lugar onde a maravilhosa coisa seria vendida e que só lá naquele lugar era possível ser encontrada naquele tempo.

Vencendo o mêdo, entrei e comecei a subir as escadas para sair nos andares ainda mais sombrios, com pequenas portas onde se podia ver pessoas lá no fundo passando dinheiro vivo e saindo com pequenos volumes.

Me detive diante uma porta e perguntei : você vende aqui ?

O cara respondeu, claro ! Eu, quanto ? E aí fiquei esperando a resposta esperando que o preço fosse aquele mesmo que os amigos falavam há meses, senão...

25 mil cruzeiros, o cara falou !

Foi como se um trem tivesse sido tirado de minhas costas, eu tinha no bolso 27, inacreditavelmente o preço havia baixado ! Era a cotação do dollar o cara falou, e ao ouvir essa palavra, dollar, naquele ambiente meio submundo me senti no velho oeste numa mesa de poker.

Rápido pedi e o caro trouxe a maravilha que fitei com olhos esbugalhados, mal tirei o dinheiro do bolso o cara o pegou e já foi me passando o pacote que saí levando apertado junto ao corpo meio disfarçando e com passos rápidos como se repente fosse abordado por alguém.

Ao chegar em casa, os amigos vieram ver. Abri aos poucos o pequeno embrulho e ela se revelou !

Aquele azul maravilhoso que com o tempo ficava mais lindo, o simbolo de nossa geração, a senha para o coração das meninas em flor. Fui tirando-a do papel erguendo-a para que todos vissem preso na parte de trás o rótulo LEE RIDERS, “an original american clothe” .

Como esquecer a primeira calça Lee ? Ainda mais comprada na velha Galeria Pajé no final de 1969? Ah tempo ...




A Bela do Campo Belo

Ela sempre descia a Rua Edison com seu passo tranquilo, seu corpo jovem e fragrante deixando a graça e a beleza no seu passar. Descia a Rua Edison e pegava a Paiaguas, vindo direto para mim, para fixar em mim seus olhos de abismo, em cujo vórtice me perdi um dia e de onde nunca mais voltei.

A Bela do Campo Belo era assim, vinha suave e de longe eu via e sonhava que talvez um dia fosse minha de verdade.

Era assim que ela sempre vinha.

Eu trabalhava ali, no famoso Jumbo Aeroporto o primeiro hipermercado do Grupo Pão de Açúcar, onde na parte de baixo estava o Car Center, grande loja de motos, carros e equipamentos e onde as vezes os amigos ricaços da Família Diniz, dona do Grupo, deixava em exposição seus carrões.

Lembro que foi ali em meio a Lamborghinis, Corvettes e Porches que vi um dia pela primeira vez a Bela do Campo Belo ofuscar com seus olhos de olhar profundo as maquinas reluzentes e cobiçadas. Para mim naquele momento vi que a única coisa que eu cobiçava era ela, seus olhos mágicos, seu corpo jovem e o possível amor que talvez nascesse.

Ela andava em meio às pessoas, em meio ao desejo que aqueles carrosdespertava e para mim era como se apenas ela estivesse ali desfilando.

Eu pensei, será que um dia vou ter uma namorada assim?

Sim ela foi minha namorada, por três vezes nos encontramos no destino e por três vezes nos amamos.

E seus beijos e abraços pela noite do Campo Belo, pela Vieira de Morais, Av.Ibirapuera, Rua Braz de Arzão, dentro do Jumbo sentados furtivamente nas escadas.

Como dizia o Poeta Maior: “ na curva dessa escada nos amamos, lembras-te carne ?”

Hoje ela vive comigo a cada momento. No seu olhar vejo meu rosto ainda jovem e no seu amor o sonho a cada instante renascido.




quarta-feira, 14 de abril de 2010

Soneto Numero 4

A cada foco na alma o Vício exalado,
Propaga no ar um tênue pensar.
Que vaga onda em mar sem termo, afaste
O inútil num minuto rápido a passar.


De cada Foco centrado no exíguo espaço
De um tempo escasso, o que perseguir ?
Lança teu olhar para o lado sombrio e tange
Os desejos pobres que ficaram.


Recorda na noite simples a calma que sonhavas,
E vê no Real e Perdido espelho da memória
As Formas antigas destroçadas.


Move-te para longe do Corpo cingido e dado
E esquece no sempre impulso abortado de tocar
A Coisa lúgubre proibida.

Os Imigrantes

Mântua fica na região do Vale do Pó, bem ao norte, próxima de Bréscia e Ferrara e foi um cansativo trajeto até o antigo porto de Gênova de onde partiria o cargueiro Príncipe di Udine, rumo a um novo e desconhecido mundo.


Um homem, uma mulher, casados, com dois filhos pequenos, uma menina de oito e um menino de cinco anos. Na barriga da mulher, gestava o terceiro filho que viria a ser menina e que iria nascer naquele lugar desconhecido.

O navio, lentamente deixou o porto e se fez ao largo do Golfo de Gênova, navegando em direção ao Mar Ligúrico e de lá para o Tirreno.

Na amurada do navio as duas crianças fitavam o claro céu mediterrâneo e sonhavam acordadas com o futuro. Seus pais preocupavam-se com eles a cada minuto. A Mãe, enérgica na sua fiscalização dos filhos e o Pai, sempre se dirigindo aos pequenos com extremo carinho.

Seguia a viagem.

O navio singrou em direção da Córsega e descendo mais para o sul fez uma escala técnica em Cágliari na Sardenha, de onde fletindo à direita orçou rumo do Mar Mediterrâneo em direção de Gibraltar.

A viagem era lenta e as acomodações do velho cargueiro muito precárias, mas as crianças viviam sua aventura maior.

O que estaria reservando para eles o futuro?

Encontrariam conhecidos, que antes deles já haviam feito a mesma viagem?

A criança no ventre da mãe saberia essa resposta vinte e tantos anos depois.

Tudo era devido àquela maldita guerra que transformou o norte da bela Itália e a região do Sermide num lugar pobre e carente e sem perspectivas. Daí a idéia de muitos homens e mulheres procurarem ganhar a vida num novo país, onde existia trabalho para todos e possibilidades de enriquecimento, principalmente para aqueles que já possuíam alguma profissão.

Brasile! alguns amigos falavam, terra para a qual muitos já haviam partido nos anos anteriores mesmo antes da guerra e mandavam noticias de prosperidade e de muito trabalho.

Finalmente o grande rochedo de Gibraltar foi avistado ainda de longe. Ali o navio permaneceu ao largo para passarem a noite cujo tempo estava um pouco ruim.

Na manhã seguinte retomaram a viagem margeando a costa africana, para após alguns dias atracarem na cidade de Dakar no Senegal.

No agitado porto africano aonde chegaram, a menina viu algo que a encheu de terror; um negro!

E outros e mais outros, parecia que todos os habitantes daquele lugar bárbaro que falavam um dialeto igualmente bárbaro haviam sido calcinados por um fogo terrível, mas permaneciam vivos.

Negro! Uomo nero! Dio mio!

Foi preciso muita calma para os pais aplacar seu terror, que ficou latente no seu espírito pelos anos que viriam.

Um dia no futuro incerto o menino já homem perguntaria com um certo tremor na voz, para um sobrinho que havia feito uma viagem para o nordeste do Brasil: — E a negrada lá?...

De lá o navio seguiu viagem pelo mar oceano, fletindo a bombordo rumo do Brasil e do Porto do Recife.

Salvador, Rio e finalmente Santos de onde baldeados trens os trouxeram até o planalto e dali para a nova vida.

E o tempo, seguiu seu curso ...

A vida é cheia de mistérios. Trinta e quatro anos depois do desembarque daquela família nasceria a pessoa que oitenta anos após a partida do Porto de Gênova, tentaria escrever em emocionadas linhas algo dessa aventura.

Descoberta

Naquele momento, o entardecer fazia dourar os ângulos suaves da cidade medieval.


Ao longe, além dos diques e dos campos de papoulas, a silhueta dos moinhos trazia uma paz tranqüila àquele lugar.

Numa pequena casa, retirada do aglomerado e do ruído das pessoas, um homem esquivo está detido espantado diante do papel e da pena.

Na mesa larga, entre frágeis objetos, os axiomas, definições e silogismos tão duramente perseguidos se organizam agora numa estrutura coerente, mas ainda assim misteriosa.

Terá sido possível, que da rigidez férrea das definições lógicas, da combinação misteriosa das palavras naquela prosa labiríntica, haver saltado aquela espantosa verdade ?

Num passado recente, tinha sido terrível o confronto com os inquisidores de sua crença. Porém sua esperança foi maior e sua fé, liberta na sua pureza verdadeira foi anátema para seus juízes.

Para mantê-la, renunciou aos dogmas de seus maiores e abraçou a nebulosa arte do pensamento e da dúvida.

Na antiga tradição da Kaballa, a combinação das letras poderia formar o impronunciável nome de Deus, ele porém o tinha descoberto na sua Ética.

“A totalidade aniquila o ser”.

Esse axioma seu era uma verdade intrínseca da substância de Deus, visto que o homem é parte da natureza juntamente com todas as coisas criadas e apenas uma parte do todo.

O todo compõe o corpo de Deus e abarca toda as coisas criadas.

“Todos os seres vivem sob uma espécie de eternidade”. Temos dentro de nós a certeza da eterni-dade, embora o homem saiba que irá morrer, ele sabe intuitivamente, pertencer à eternidade, dentro da totalidade divina.

“Todas as coisas querem perseverar no ser”. Sim, o homem quer eternamente ser homem, assim como a pedra quer ser eternamente pedra, buscando na permanência, sua própria essência.

Sim, seu espanto cada vez mais ia se tornando uma certeza diante da enormidade daquela descoberta.

Recordou que na tarde da excomunhão, julgou sentir dentro de seu peito um sentimento de orgulho por ter escolhido viver dentro dessa verdade. Agora ali, na tarde calma, entre os escritos, tinha a certeza da definição correta e do acerto de suas escolhas.

O homem busca sua ética para dela viver, não para ter uma conduta diante dos outros, mas, antes, para poder olhar seu rosto no espelho.

Aproximou-se lentamente da janela da pequena sala de estudo e fitou a tarde, agora não teria que esperar muito pensou.

Vítima de sua própria verdade, ao pronunciar o terrível nome, conhecera o fim.