Chovia naquela manhã e mais uma vez fazia frio pelas ruas do Jardim São Paulo e nós ficávamos, alunos do terceiro ano primário se movimentando pelo enorme pátio da escola tentando nos aquecer e esquecer.
Naquele dia iríamos receber as notas da prova de matemática, aquela materia adorada por todos e cujas notas eram sempre esperadas na dúvida e no sofrimento.
Em nossa escola, “Prof.Máximo de Moura Santos”, era a única matéria que era dada por um professor o que para nós era um complicador adicional.
Mas o que fazer? A vida era assim mesmo, existiam segundas-feiras, missas, lições de casa e.. aulas e provas de matemática !
Ao sinal, fomos entrando em nossas salas de aula e cada um ocupando seu lugar tentando rir ou disfarçar da grande tragédia prestes a se abater sobre a imensa maioria de nós.
O tumulto da entrada foi se acalmando quando surge na porta, assim meio de perfil, ele, o Sr.Professor.
Silêncio sepulcral !
Lentamente, sem olhar para ninguém, foi se dirigindo para sua mesa sob a qual, num gesto meio assim de desprezo, larga uma pasta negra, aquela que devia conter nossa sentença de morte, pensei.
Silêncio absoluto !
Nas janelas apenas a garoa fria batendo e por suas frestas o vento gélido, polar, terminal.
O Professor ficou olhando pela janela com expressão de cansaço e desanimo a toldar-lhe o semblante por longo tempo, mal notando nossa presença na sala silenciosa sem dizer absolutamente nada.
O terror foi dominando cada um de nós, provavelmente receberíamos além do enorme ZERO aquele sermão tão aviltante e tão evitado por todos os alunos desse mestre exigente e severo.
Foi quando de súbito, pega da pasta sob a mesa, abre-a, e com o dedo indicador e o polegar da mão direita como se fosse uma pinça, num gesto de repulsa, começa a tirar folha por folha e com voz cava começa a dizer:
Luiz Carlos, nota 3 !
Antonio Junior, nota 2,4!
Maria Felícia, nota 3,1!
Helio Burato, nota 2,8!
Aparecida Ferreira, nota 4,1!
Meu Deus, a melhor aluna da classe, Aparecida Ferreira, a meiga e estudiosa Cidinha, tirou apenas 4,1 então meu zero devia ser tão imenso que de algum modo iria abarcar até as outras matérias.
A voz apocalíptica continuava:
Carlos Alberto, nota 3,2!
Fernando Meira, nota 3,1!
Paulo Roberto, nota 1,8!
Alexandre Mauricio, nota 1,2!
De repente, um sentimento de orgulho e heroísmo inesperados foi tomando conta de mim porque pensei em meio a tantas “baixas” quem iria se importar comigo?
Eu pensava e ao fundo a voz monocórdia continuava sua plegaria, meu Pai não ia se importar com meu zero em vista de tantas notas ruins, mesmo porque meu forte era português e ciências mesmo.
Foi quando percebi que a voz havia cessado e agora o Professor olhava diretamente para um ponto na parede do fundo da sala, onde a canalha se sentava e falou, agora com um tom mais ameno:
Houve apenas um aluno, apenas um, que salvou a honra de nossa classe, Alfred Delatti, nota 7,5!
O mundo desabou sobre mim quando todos me olharam e eu incrédulo quis gaguejar um obrigado para o Professor que me olhava sorrindo, mas nada consegui falar.
Eu 7,5 de matemática ? Era verdade !
O Professor me deu parabéns ao me entregar a folha da prova onde no alto pude ver em tinta azul a cifra redentora 7,5 !
A classe, rompendo o ar pesado e tenso explodiu numa ovação que a todos contagiou até o Professor sisudo, agora rindo com todos e eu pensei que matéria maravilhosa que é Matemática.
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